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Astrônomo amador brasileiro registra impacto em Júpiter

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Ser o primeiro brasileiro a registrar um raro evento astronômico – no caso, o choque de um objeto celeste com a superfície de Júpiter – requer, segundo o autor da façanha, “resistência, resiliência, vontade e determinação”. Desde 2012, o astrônomo amador José Luís Pereira vive uma rotina de 4 horas de observações diárias, sempre que o céu estava limpo ou parcialmente nublado.

Quando em boas condições climáticas, José Luiz produzia cerca de 180 vídeos diários, a serem observados em uma tela. Além disso, o hobby lhe custou, por baixo, R$ 40 mil em equipamentos – boa parte encarecidos “por custos de importação altíssimos”, disse à Agência Brasil.

Engenheiro civil aposentado, o astrônomo amador tem 60 anos de idade e trabalha atualmente como pessoa jurídica, desenvolvendo projetos na área de construção civil. O encanto com os mistérios do Universo é antigo, e teve início quando tinha, ainda, 14 anos de idade.

“É uma questão filosófica, porque a astronomia nos faz pensar que todos somos estrelas, já que nossa composição química tem, como origem, explosões estelares. Estudar o Universo me dá a sensação de me estudar. Essa conexão com céu e espaço me acalma o espírito e me dá a sensação de interagir com algo maior”, explica.

Arte em constante mutação

Ao contrário do que parece, passar noites observando a superfície de um mesmo planeta está longe de ser algo entediante. Ele explica que, no caso de Júpiter, a observação é diferente da observação de outros corpos celestes como, por exemplo, a Lua, que tem sempre a mesma imagem.

“Júpiter é uma obra de arte em constante mutação. Muda constantemente. Primeiro porque a rotação do planeta é de 9 horas 54 minutos, enquanto na Terra é de 24 horas. Em segundo lugar, porque há, em Júpiter, várias bandas equatoriais de nuvens que giram em sentidos diferentes, fazendo com que a atmosfera superior esteja em constante mudança”, detalha.

Diante de tamanha beleza, vários astrônomos profissionais e amadores se dedicam a observar esse que é o maior planeta do sistema solar. Há, segundo o astrônomo amador, várias associações dedicadas exclusivamente ao estudo de Júpiter, além de uma sonda, chamada Juno, desenvolvida pela Nasa, a agência espacial norte-americana, que orbita ao seu redor.

Primeiro telescópio

O primeiro telescópio de José Luís só veio aos 22 anos. “E foi exatamente Júpiter o primeiro objeto observado”, disse. “Foi ali que começou minha relação com esse planeta. Olho para tudo que é corpo celeste, mas a área planetária, em especial Júpiter, sempre foi a que mais me chamou a atenção”.

As “observações sistemáticas” de Júpiter, no entanto, só começaram em 2012. “E em 2017 dei início às busca por impactos planetários, também de forma sistemática. Eu planejei fazer essa descoberta”, disse. Desde então, basta ter um céu limpo ou parcialmente nublado para José Luís varar a madrugada na busca por testemunhar tamanho evento.

Alta probabilidade de impacto

Na madrugada de 12 para 13 de setembro, quando detectou o impacto na atmosfera jupiteriana, só foi possível gravar 25 vídeos porque havia muitas nuvens. “Só que, no dia seguinte, quando olhei o programa vi a mensagem ‘alta probabilidade de impacto’, o coração disparou de imediato, e minhas mãos tremiam porque há muitos anos eu procuro isso. A princípio eu não acreditei porque esse tipo de descoberta, até então, só acontecia fora do Brasil”.

A confirmação de que, de fato, havia registrado o tão desejado impacto veio de um amigo francês, também astrônomo amador, mas que tem o amparo de um astrônomo profissional espanhol. “Enfim, meu objetivo foi alcançado e a confirmação foi oficializada mundialmente”.

Em 2017, José Luís chegou a sentir algo parecido, quando identificou um clarão nas imagens que havia gravado de Júpiter. “Só que infelizmente tratou-se apenas do chamado raio cósmico, que ocorre na alta atmosfera da Terra. O lado bom é que ganhei experiência e não confundi mais”.

Mudanças

Desde o flagrante, a vida de José Luís não é mais a mesma. “O telefone daqui não parou de tocar. Muita gente me procurou para entrevistas e para me parabenizar. Sei que em breve tudo voltará ao normal, mas tenho agora uma sensação muito agradável de que meu nome entrou para a história da astronomia mundial e, em especial, para a astronomia brasileira”.

“É uma sensação de ter concluído uma busca após muita resistência, resiliência, vontade e determinação. Estou muito feliz e satisfeito em servir de exemplo para colegas que manterão a mesma dinâmica e seguir adiante para atingir seus objetivos”, acrescentou.

José Luís comemora também o fato de ter colaborado para melhorar a imagem da comunidade astronômica brasileira no exterior, “em especial para a comunidade amadora dos Estados Unidos e da Europa, que sempre manifestaram poucas expectativas com a astronomia amadora desenvolvida no Brasil”.

Ele, no entanto, enfatiza que não se trata de uma descoberta por acaso. “Foi uma busca sistemática. Não foi fruto do acaso. Segui uma metodologia de observação buscando justamente o impacto”, explica.

Impactos

No caso do impacto flagrado pelo brasileiro, trata-se de um impacto de proporção bem menor do que o ocorrido em 1994, quando diversos observatórios e astrônomos registraram o choque entre um fragmento do Cometa Shoemaker e Júpiter.

O cometa havia sido captado pela gravidade colossal de Júpiter e se fragmentado em 22 pedaços. Ao contrário do que geralmente ocorre, nesse caso foi possível calcular o momento do impacto, o que possibilitou o acompanhamento a partir de diversas localidades.

“O que persigo são impactos bem menores. Ao que parece, o que captei foi de um objeto da ordem de 10 a 20 metros, tamanho que já é suficiente para gerar o flash observado, mas isso ainda está sob análise. O que se comenta é que tenha, no máximo 50 metros, o que deve corresponder a 500 toneladas e a um poder energético equivalente a pelo menos uma bomba nuclear”, estima Pereira.

O equipamento utilizado é bastante simples, apesar de ter um custo estimado de R$ 40 mil. “Tenho um telescópio com uma câmera dedicada, produzida para filmagens em planetas. A eles eu acoplo um equipamento chamado montagem equatorial, que possibilita a câmera ficar centralizada no planeta, compensando o movimento de rotação da Terra”.

A imagem coletada é ampliada graças a um instrumento óptico chamado Power Mate. Um programa de computador analisa os vídeos, procurando os impactos que, em muitos casos, podem ser imperceptíveis. “Esse programa procura diferenças de brilho e avisa. A gente então olha em uma tela para conferir”.

Edição: Fernando Fraga

Fonte: EBC Geral

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Ministério da Economia faz evento para analisar 5G em outros países

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O Ministério da Economia realizou nesta terça-feira (26) um seminário para analisar experiências do 5G em outros países. O evento contou com a apresentação de um estudo realizado pela consultoria Deloitte, que vem atuando em parceria com o ministério. O leilão para selecionar a exploração de serviços de conexão com a tecnologia 5G está marcado para o próximo mês.

Segundo o coordenador de Economia 4.0 do Ministério da Economia, James Gorgen, o projeto da pasta com a Deolitte e outras instituições visa mapear quais são os atores públicos e privados que atuam ou têm potencial para atuar em serviços usando o 5G e os desafios para fomentar soluções a partir dessa tecnologia.

“A gente quer oferecer outro olhar para além da infraestrutura, lidando com a camada de aplicações, de soluções digitais, de sistemas interligados nas redes de acesso e redes privativas. Mapear a demanda existente por essas soluções, seja no 4G como no próprio 5G trazer a recomendação de uma política pública para o ministério”, explicou Gorgen.

Para isso, uma das ações do projeto foi o exame de como o 5G está sendo tratado em 12 países: China, Japão, Coreia, Alemanha, Israel, Estados Unidos, Reino Unido, Irlanda, Suécia, Rússia, Colômbia e Índia.

A China possui grandes empresas de tecnologia, como Alibaba, Baidu e Tencent. Essas companhias ganharam escala com o mercado interno e se beneficiam do protecionismo do governo chinês. Um plano quinquenal (2021-2025) apontou bases para a priorização de ações usando o 5G e o desenvolvimento de infraestrutura, padronizações, hardware e software.

A Coreia do Sul lançou em 2019 a estratégia 5G+, com foco em dez indústrias de equipamentos e cinco segmentos de serviços. A iniciativa estabeleceu como diretriz o investimento dessa tecnologia no setor público, por meio da implantação dessa conectividade em ações da instituições do Estado, e no setor privado, com créditos fiscais e outros incentivos. Em 2020, um novo plano (New Deal Digital) previu US$ 8,6 bilhões em investimentos em infraestrutura digital e simplificação regulatória.

O Japão já vem desde 2014 com o acúmulo de um Fórum de Comunicações Móveis de 5ª Geração. Neste ano, o 6º Plano Básico de Ciência e Tecnologia indicou investimentos de US$ 225 bilhões em tecnologia, com contrapartidas de US$ 675 bilhões das indústrias do país.

Os Estados Unidos são um país de destaque entre os exemplos internacionais. É a sede de grandes conglomerados de tecnologia, como Amazon, Microsoft, Google, IBM e Oracle, que são grandes competidores no mercado das soluções em nuvem. O plano de infraestrutura do presidente Joe Biden prevê US$ 65 bilhões para investimento em infraestrutura de banda larga. O país também tem forte cultura de parcerias entre universidades e o setor privado.

O Reino Unido tem um mercado de empresas de tecnologia desenvolvido, com 80 empresas unicórnio (com valor de mercado de mais de US$ 1 bilhão) em 2020. Há incubadoras específicas para o 5G. Segundo o estudo, 10% das vagas de emprego no país são relacionadas à área de tecnologia. O governo destinou US$ 1 bilhão para testes 5G entre 2020 e 2021. As universidades estão criando projetos de pesquisa especificamente voltados a essa tecnologia.

A Índia é um centro de exportação e terceirização de serviços de Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) de multinacionais. O país possui uma cultura de protecionismo no desenvolvimento de hardware e software, tendo potencial de desenvolver softwares importantes na cadeia de soluções em 5G. Embora o país tenha desafios em razão da enorme população (como baixas taxas de conectividade fixa), o governo tem adotado políticas para incentivar o 5G, como benefícios fiscais e vantagens a fabricantes de equipamentos nacionais.

Os pesquisadores concluíram que não há um modelo único de investimento no 5G. “Tudo isso depende de um contexto do país, o quanto ele já está familiarizado com o 5G. Mas a gente consegue sim apresentar com esses países”, disse Márcia Ogawa, sócia da Deloitte Brasil.  

Ela citou entre os aprendizados a definição de estratégias e políticas públicas consistentes, como ocorreu no Japão e Coreia do Sul; a coordenação entre governo, academia e empresas; incentivos voltados à base da cadeia produtiva de tecnologia; potencialização das principais competências estabelecidas e a participação ativa dos institutos de pesquisa.

“É uma jornada complexa que envolve múltiplos atores. Ela é colaborativa, por vezes envolvendo múltiplos países. É um processo longo. As escolhas que temos que fazer vão influenciar bastante a sociedade”, concluiu. 

Edição: Aline Leal

Fonte: EBC Geral

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